quarta-feira, 2 de maio de 2012

A vida secreta da estrela


Por Luana Borges


Como vós podeis supor (se não supõem, vos falo), o olho de quem tem sangue de repórter é inquieto e ouve tudo. É olho circundante. E naquele dia as pupilas davam mais voltas em minha íris amarela do que jamais a serena catraca do Circular Aeroporto-Via Setor Jaó ousara percorrer em seu movimento cotidiano de rotação. Eu vinha nesse ônibus. Eu a rodar pelo centro da cidade rumo à minha casa. As pupilas giravam mais que eu, estavam danadas e reparavam em tudo. Além de atentos ouvintes, esses olhos eram faladeiros demais e uma pupila fuxicava à outra o que vira. Fuxicava como vos fuxico agora.

É que o moço, no ônibus, estava muitíssimo interessado na moça. E o moço contava vantagens só porque tinha moto e fazia compras em supermercado grã-fino. Também pedalava, tinha corpo bonito de homem bonito e musculoso e, além do mais, falava que iria a Brasília sobre duas rodas. Ele, possante, braços firmes e duros, guidão da bicicleta.  Mas a moça sequer conhecia o bar da moda, trabalhava como atendente de empresa aérea em aeroporto e jamais saía de casa sem sua maquiagem de aeromoça. Estava era interessada no jantar que o moço prepararia.

Houve uma novela, certa vez, sobre uma estrela apagada. Era necessário muito esforço para vê-la. Mais, era necessário quase um dom para que se pudesse notá-la no céu negro e frio de uma vida. Essa estrela apagada era moça e se chamava Macabéa. Então, naquele dia no ônibus, eis que me deparo com a atendente maquiada, sua luz própria fraca e fraca, o balcão era seu palco. A roupa rala se fingia chique. O batom carmim.  Ela era a minha Macabeá, fugida das páginas da novela. 

- É um encontro gas... gastro...gas... gastronômico? É assim que se fala? – dizia ela.

- Sim, um jantar. Sim, gastronômico.  Gas-tro-nô-mi-co. respondia o homem sábio.

 Então a moça sorria e deixava entrever uma ruga, pequenos pés-de-galinha que rompiam na aridez da pele empoada. Tinha pouca idade. Uns trinta. Não pude saber como ela se chamava porque meus olhos eram velhas fofoqueiras de vilas distantes e, apesar de hábeis, eles auscultaram, auscultaram e auscultaram e, no fim, nada de revelações. Mas quando uma velhinha – apenas aquelas desse tipo que meus olhos são – não sabe a palavra exata, se ela for hábil mesmo inventa um sinônimo e continua a história. Daí a beleza das histórias.

E minha Macabéa podia ser qualquer uma dessas que andam de ônibus, empoadas e brancas, mais brancas do que deveriam, mocinhas que não conheciam o bar da moda e que tinham por obrigação ter um nariz bem empoado por detrás do balcão. A maquiagem era a proteção - espécie de armadura pela qual minhas Macabéas viam outros narizes empoados, estes soberbos, soerguidos por entre maçãs de rostos tão vermelhas quanto artificiais. As maçãs repletas de agrotóxicos e sem gosto.  Além das maçãs, essas meninas “Macas” também se protegiam de óculos que se equilibravam, sisudos, nas pontas de narizes engravatados e gordos.

Mas o quê os narizes de gravata e as bochechas avermelhadas sentiam mesmo em relação às minhas moças era indiferença. Não falavam porque era vergonhoso, também não interessava, mas eles tinham até certo nojinho do pó barato de farmácia que elas passavam naqueles narizes um pouco abertos, elas atrás do balcão, meu Deus!  Por sorte, Macabéas têm talento para se auto-anestesiarem. A armadura de ser moça aérea.

- No aeroporto são seis e trinta da tarde e, graças a Deus, eu vou para casa. O ônibus está cheio, mas hoje tem novela e a personagem vai ganhar na loteria. E é hoje. Vou ver... Ah vou ver! E comendo miojo... Qual o sabor do miojo que tenho em casa mesmo? Ah, galinha caipira!   

A mulher de minha história. Erguida das valas comuns de tantas outras, observada entre tantas macas enfileiradas, eu não sabia seu nome. Um sinônimo para ela então. Como seria o sinônimo? Ângela. Era muito parecida com Ângela. Misturava um ar angelical, gélido, gelo... A Ângela. Singela. Ela queria mesmo era usar suas asas de anjo para poder voar para longe – aérea fugia do aeroporto repleto de maçãs vermelhas e narizes soerguidos de pontas afiadas e sisudas. Aérea como no dia em que o vento tirou todo o pó de seu nariz e ela pôde, enfim, deixar ventar em sua pele seca sem armadura. E o vento era o que havia de melhor! Mas ela tampouco conhecia o bar da moda, não iria a Brasília de bicicleta, não tinha guidão nenhum que a guiasse. Sobretudo ela não tinha guidão. Ângela.

E o rapaz? O rapaz a incomodava porque ele era lindo e bom. Facilmente se percebia que aquele ônibus não era sua rotina. A moto lustrosa possivelmente estaria na revisão, podendo até ser, pelo tipo do moço, uma Kawasaki Ninja com seus 138 cavalos de potência máxima. Ele bem tinha cara de Kawasaki. Tinha um rosto lustroso, feições eficientes – cada qual com uma finalidade, pois ele parecia não ter tempo para o gratuito ­– e o vigor de caninos que desciam eretos, revelando-se em levíssimas e precisas pontas em seu sorriso largo. Era o melhor. Apetitoso. Ah, mas sua gastronomia, que preguiça de sua gastronomia! O rapaz era Ulisses. Era grandioso com seu nome heroico. Mas era também pesado de tanto músculo. Pena. Não dando para saber o nome dele – esse também – e a velha tendo de ser hábil, o sinônimo “Ulisses” parecia perfeito para o rapaz do guidão. Deixaria a moto, esportista sobre a magrela. Potente bicicleta que fala sobre seus louros.  Ele chega a Brasília, pedalando, pedalando, pedalando. Ai que cansaço, pensava Ângela.  

Mas é que um dia Ângela ganhara de sua madrinha, já falecida, o único presente valioso que lhe deram na vida. Um anel com uma pedra rara. Lindo. Raro. Mas Ângela era desastrada e a jóia caiu no ônibus, quebrando-se em miúdas partes. A moça lamentou. “Quanto dinheiro perdido! E minha madrinha, morta, que me queria tão bem. Perdoe-me, madrinha!” Mas se sentiu livre. O vento raleava a maquiagem, descobria o nariz aberto. Ela respirava tanto! Olhava os pequenos pedaços de pedra no piso do ônibus, esverdeados, reluzindo às primeiras horas da lua cheia. O vento parecia espalhar os raios da lua aos quatro cantos. Sem máscara, o rosto nu sem armadura.  E livre do peso da pedra em seu dedo. E o moço era pedra rara e linda. A joia.

Anel quebrado, lamento enfático em razão do dinheiro perdido e da falecida parente, mas dentro do peito silencioso um ânimo fresco de liberdade, que se misturava ao vento, à lua, ao dedo livre, ao ônibus que ia, ao verde caído da pedra despedaçada que reluzia, reluzia, reluzia, piscando, acendendo e apagando ao ritmo do trânsito e das voltas loucas do motorista. O coração acelerava a cada curva do velho centro. E Angela mal ouvia o último louro que Ulisses contava. Ele falava - sua boca abrindo e fechando - e ela livre. Sem bar da moda. Galinha caipira. É esse o sabor do miojo. Pensar é livre, pensava. O vento!

Foi então que... breque! O ônibus estacou em desaceleração fremente. O súbito sinal vermelho visto pelo motorista distraído. Os últimos desmanches de pedras rolando por debaixo dos bancos, agora pedacinhos verdes invisíveis, escondidos nas trevas baixas de poeira, de baratas e de chicletes incrustados no chão do coletivo. Macabéas arrancadas com violência de seus devaneios aéreos. Súbito sinal vermelho, ruído de pneus fritando ao asfalto sujo. O vento? O ônibus brecou repentino e, para Ângela, a volta à terra fora abafada. Pela primeira vez, desde que começara o intuito de pensar em liberdade, não foi o vento que lhe limpou da cara chata o pó de farmácia. O breque ria irônico de seu voo tolo, chamava-a à terra, semáforo fechado. Não! Onde está o vento? Um suor pegajoso escorria-lhe à testa, revelando, por entre o pouco pó ainda existente em sua pele, uma tez escura e crua e verdadeira. Escorria-lhe a transpiração, desenhando-lhe no rosto um suave e fino leito de rio, desses que naturalmente cortam a cara artificial da cidade.   

Violentada. Enxotada de sua vida secreta. O homem do guidão sequer percebera a pequena tragédia de Ângela. Apenas incomodado com a distração do motorista do ônibus – “parece que anda na lua”, dizia ele –, perguntou à moça se o jantar estava mesmo de pé.

- Hein, topa mesmo? Aí eu aproveito e mostro pra você a bicicleta.

Ela mal ouviu a pergunta. O homem de louros, colírio. Mas onde estava a lua cheia, meu Deus? Só via a bola vermelha da sinaleira. Uma nuvem negra escondia os raios lunares. Começava a chover, grosso e abafado e quente. A luz própria de Macabéa - antes envaidecida pelo vento - novamente fraca e fraca. Pela primeira vez voltando-se ao moço após a inundação de lua, disse-lhe que sim, que ele ligasse para confirmar o encontro. Passou-lhe o telefone.  Afinal, seria até bom saber em que consistia, de verdade mesmo, o tal “gastronômico”. Mas era palavra grandiosa, chata, ruim para falar, quase indigesta com seu dígrafo pesado. Macarrão instantâneo de galinha caipira era mais simples, ela mais livre em sua pacatez pensante, após a novela.

Mas pensou no guidão que guiava. Não queria. Queria o verde pisca-apaga da pedra quebrada, o ônibus roda-roda, o dedo livre, o vento, vento, vento, vento. Mas pensou no valor do anel. Mas pensou no pesar da madrinha morta.  Queria? Queria, não queria. E resolveu por fim, decidida e cansada, retocar a maquiagem desfeita. O ônibus rodava quando ela disse o “sim”, aceitando, encurralada, o convite. Afinal, devia aceitar porque sempre tinha sido desse modo, aquele mesmo tráfego no velho centro. Isso foi pelo menos o que supuseram as velhinhas de meus olhos, aquelas fofoqueiras que moravam em vilas distantes. Ah, elas viviam, claro, no démodé de casas antigas.


quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sobre a mulher que sou. Sobre o homem que não sou. Sobre o homem que fui. Sobre o mundo que eu queria captar. Sobretudo, sobre a pretensão.

Luana Borges

Hoje eu não escreveria sobre mim. E até quereria que minhas palavras fossem homens. Quereria contar uma dessas histórias repletas de personagens e de ação, criatividade em cada ato. Quereria uma escritura distante da autobiografia. Meu texto não sou eu. Nunca foi. Vocês é que pensam que sim e se deixam levar por minhas histórias que me transcendem. Transcendem-me graças a Deus e graças à palavra que, assim como o deus, não me pertence e me está além. A palavra resvala em outrem. Não fica em mim. Assim reverbera o verbo que também não nasce de mim, que também não me é originário: cato-o no mundo, já repleto de sentidos, e essa é minha profissão. Aos jornalistas, falta o entendimento de que eles devem bordar o texto com cuidado, pesquisando seus fios no emaranhado do mundo. Muito tato e delicadeza, afinal há gente por entre as cordas fiadas. Mas, entre os fios das ruas mundanas, há outra porção de gente que merece mesmo ser enforcada.
Há gente ruim. Gente que rouba nosso dinheiro e nossa comida. Esses ladrões comem demais, compram demais, engordam demais, têm ouro demais, brilham demais, espreguiçam demais e pensam de menos. Essa gentinha ruim, que coloca grana em cuecas e em onde mais couber, deixa-nos com tudo de menos – compras, comidas, dinheiro, ouro e até pensamento, porque ninguém pensa demais com fome. “O homem faminto jamais procurará estabelecer uma relação estética com o alimento”[1]. Sua privação apenas dá lugar ao desejo de saciar-se rapidamente. Dessa forma, o valor estético, o pensar sentindo, o sentir pensando e a dimensão existencial da arte não o solicitam. É por isso que essa gente que nos rouba dinheiro – corrupção deslavada - rouba-nos também a vida e o sentir, rouba-nos o pensar e a fruição. Rouba-nos os prazeres mínimos vez que fazem com que pensemos apenas na necessidade primeira: o desejo de sobreviver. Quem apenas sobrevive - inspira, expira, inspira, expira - não tem tempo de vagar por reflexões existenciais. Estas nos são roubadas ante as circunstâncias imediatas de uma vida que urge.  Então nós, jornalistas, enforcamos, quando dá (a maioria das vezes não dá), os ladrõezinhos.
Enforcamo-nos como merecem e sem piedade, a pedido de um não sei quê de cidadania e de justiça. A pedido de nossa revolta (revolta que me faz até ser piegas). O problema é que, às vezes, em nossa sede por fios bem apertados ao redor de pescoços, enforcamos pessoas erradas e não merecedoras de nossa escória. Há gente que não merece a forca em praça pública. Aqui me veio outra divagação: alguém – por mais inescrupuloso – mereceria o cuspe em meio aos flashes? Fica pra outro papo. Esse não é o assunto de nossa prosa. Perdi-me com a ideia de emaranhado de fios nas ruas do mundo, perdi-me porque há gente por entre esses fios e minhas palavras não vêm de mim, elas nascem delas, nascem delas porque eu amo essa gente. Mas ainda não cheguei ao ponto. Quereria que minhas palavras, nesse texto, hoje fossem homens, que em minha história tivesse ação e personagens redondos, que essas linhas que as senhoras e os senhores lêem agora se sucedessem pela relação de causa e efeito e que, sobretudo, ninguém tivesse a audácia de dizer “mas esse texto é você”, tão “confessional”. Não é. É HOMEM. Escrevo apenas.
E minha escritura falaria então sobre o homem mais musculoso do mundo. Seria um homem tão salgado – o sal de seu corpo sarado da última corrida, do músculo enrijecido e do cansaço dos últimos abdominais – que os misóginos aplaudiriam sua dureza áspera. Ele se inflaria e se chamaria Francisco. Seria seguro. Cantaria mulheres. Cantaria até morrer. Até morrer, morrer de novo e nascer mulher. Porque, modernizando o que disse ainda em 1952 uma amiga chamada Teresa, se antes a engenharia da mulher era a de saber construir um lar, hoje, além da boa estrutura de nossos lares, também sabemos erguer casas.  Casa e lar sobre o nosso domínio. Temos em nós a engenharia de saber fazer concreto e o doce afeto de saber construir atmosferas.
Em casa de minha avó, o sábado era inteiro bolo de chuva se fazia sol, ou banana quente com canela se chovia muito. Que sabedoria de lar! E o sábado inteiro era meu e de outras crianças. E quando começávamos a ser domingo, ficávamos tristes e com cara de missa, mas logo nos lembrávamos do lar de primos e de vida que nos esperaria no próximo final de semana. A Dona Teresa de que falei há pouco, aquela dos idos de 1950, disse-me, em um texto seu, que uma criança pobre, ao ser inquirida por um homem de bigodes sobre o fato de sua família não possuir moradia, deu-lhe uma resposta incrível.  O bigodudo disse-lhe: “que pena vocês não terem o lar!”. A espertinha retrucou, espantada com a ignorância do amigo: “lar nós temos, o que não temos é uma casa pra botar o lar dentro”.
Mas me esqueci! Como hoje estou ensimesmada e egoísta, Meu Deus! (o texto tendo de sair do papel em prol de minha existência, Céus!). Por isso, esqueci-me completamente! Meu texto hoje é homem. Meu texto hoje quereria ser homem rude, daqueles que servem apenas para cantar mulheres. Daqueles que só pensam nisso. Mas meu texto, cantando mulheres, transformou-se em uma ode aos lares, é isso? E
às casas, claro.  Um poema à ciência do concreto e do atmosférico. Elas sabem de tudo, sacaram? Da matemática ao amor. Um beijo então desse homem, um conquistador barato que entende que elas sabem, e não só sentem, e que sentem, mesmo sabendo.
Leitor, meu personagem homem resvala em mim e está me sendo meio bruto agora. Bruto porque quer tomar voz e está um pouco chateado devido à forma como eu o trato. Em torno dele, não há cenário porque ainda não consegui criar a história de meus sonhos. Onde estão minhas causas e efeitos? Meus personagens redondos? Minhas cenas? As ações? As descrições? O cenário me é só a brancura de meu papel. Ele fala:
- Tendo de ser homem bruto, pois minha criadora assim me quer, pensei em só cantar mulheres. Mas resolvi cantá-las em sabedoria e traí minha criadora em defesa dos homens. Traí-a e já é fim de texto, estou quase por morrer mesmo. Inevitavelmente morrerei. Já que é assim, não tenho medo de que ela, a criadora, mate-me devido à minha traição! Traí-a, pois cantei a inteligência de mulheres lindas. Não me detive aos seus corpos. Entretanto minha criadora querer-me-ia rude! O que consegui – céus! - foi uma ode aos lares e às casas. Ao concreto que elas dominam. Ao atmosférico que elas detêm. Minha ode significou parabéns, admiro-as! Eu não fui o Francisco áspero. Sendo Chico, fiz música das palavras. Cantei vida, olhos e mulheres. Cantei até morrer. Fui doce em meio ao sal de meu corpo sarado de músculo enrijecido. Tão doce que eles, os misóginos, até riram de mim. E eu os defendi, homens. Fui o homem que devia ter sido.  O homem que elas admiram, inclusive a criadora, que está com raiva somente porque, em verdade, quereria era jogar com as letras e fazer refletir com outra espécie de personagem-tipo, dessa espécie de homem bruto que está me lendo agora e rindo inteiro de macheza.
Então eu digo a este homem meu personagem, o único que me foi possível: “Não fui traída por você”. Traí-me a mim mesma. E ao leitor. Porque este texto, homem tão doce, acabou mesmo, a despeito de eu ter jurado que não o faria, sendo um pouco: de mim. É o fim.
Mas, no fim, sempre fica a transcendência das palavras. Que não morrem com meu personagem. Tampouco morrem comigo. Nunca é autobiográfico, nunca é simples assim. As palavras estão além. E sopram. Elas detêm o segredo de chiiiaaar, aos quatro ventos.


[1] Eduardo Portella.

domingo, 18 de setembro de 2011

Divagações após um dia bom


Ter sorte, certa inteligência e ser feliz significa saber escolher pessoas a dedo. Minhas pessoas foram – e são - tão bem escolhidas que receio faltar-me amor.  E, quanto mais receio, mais amor tenho. Porque o amor se constrói no incerto bom, que de uma hora para outra vira diálogo bom, que de outra hora para outra vira cotidiano, que logo vira convivência e que, quando se vê (não se imaginava!), mesmo distante se sente amor. O ponto em que a distância não importa é aquele em que, não mais que de repente, essas nossas pessoas, por fazerem parte de nós, acabam inevitavelmente se transformando em nossas vidas (e de uma vida que é própria e nossa obviamente nós não nos distanciamos). E saber que tudo começou com um receio de dar bom dia ou de contar um segredo. Mas a vida não começa no receio? Aceitá-la toda viva não é atitude sem medo.
     Um indivíduo só é uno quando pode enxergar em si mesmo uma porção de outros. Só assim, pelo outrem que se vê no seio, surge uma ousadia forte. Uma coragem que é capaz de desfazer todo o medo primeiro de uma vida. A partir dela, todo o trêmulo “sim” ao ato de viver transforma-se em brado confiante. Todo o receio se esvai então em sorrisos. Sorri quem sabe escolher a dedo. Escolher a dedo a outridade certa – e saber colocá-la em nós - é a sabedoria mais doce. E saber docemente é o que procuro agora.
     Ao fim, resta-me então destinar esse pequeno texto aos Meus. Meus porque estão em Mim e me são a outridade essencial. Ora, meus porque simplesmente... me são. Deve-se perceber que o milagre mais forte está em nós e não além. O milagre mais forte é justamente a possibilidade de caberem tantas pessoas em um único seio.  Descobre-se então - não sem espanto e perplexidade – que viver é simples, o que não quer dizer fácil. Docemente, descobre-se que talvez uma vida inteira seja apenas só - e tudo - isso.
(Luana Borges)

domingo, 4 de setembro de 2011

A moça viajante e a vida de sua cozinha


Luana Borges
Um dia ela se mostrou menos menina. Cortou os cabelos. Pintou as unhas. Decidiu não mais esperar que ele viesse, cavalo branco que galopa apenas insossas ilusões. Um dia ela fez as malas, poucas roupas vestiam uma vida inteira. Um dia ela matou de saudade quem pensava que ela se manteria ali, mesma cidade de menina de cabelos presos. Um dia seus fios jogados ao vento. Agora lindos ao vento. Um dia suas mãos forasteiras plantaram em outras terras. Seus cabelos peregrinos cortaram praças e avenidas por onde sobrevoavam pássaros de cores. E a boca estrangeira tudo balbuciava na cidade verde do vale longínquo.
Mas um dia, depois de escrever a vida em ruas distantes, ela voltaria com um diário repleto de histórias. Ela voltaria e faria rir quem ficou esperando-a no concreto cinzento, quem morreu de saudades e de fumaça. Ela contaria todas as peripécias e as verdinhas normalidades cotidianas em doces fios de prosa. Ela desenrolaria, na cozinha de café quente, os novelos vividos na cidade longínqua. Dos novelos, novelas do tamanho da paz. Na cozinha, ela ia desnovelando os caminhos de fada.
Desnovelava até chegar o dia em que teria de recolocar a linha na agulha. Teria de ir a outro lugar, tecendo vida. Talvez chegaria a uma cidade laranja de sol oriental. Moça tão breve. Um dia seus fios de novo jogados ao vento, olhando tudo como estrangeiros, descobrindo tudo, tateando tudo, balbuciando tudo.
Mas é certo que haveria o dia em que a moça enraizaria os seus contos coloridos. Não hoje. Tampouco breve. Não amanhã. Um dia, sem tempo cobrado. Mas agora ela sabia: tinha de ir rápido ao encontro de outros ares e pares. Tinha de correr e sorrir à falta de sua cozinha que tudo acalenta, onde estão xícaras e bules que conversam prazenteiros. Já era hora: o dia era de ir.
Então iria. Mas não sem antes dar o último gole bicado naquele seu café, tão quente. Despedir-se-ia apenas: apenas para poder voltar. E apenas para depois se aquecer– mais uma vez e sempre e mais outra – ao gosto da bebida forte que havia em seu lar, que havia dentro daquele bule de sua cozinha-mãe. Ali, as panelas estavam sempre ao fogo. O tilintar de pratos e de chávenas e de talheres ressoava o vaporzinho de café fresco e o cheiro de frutas. Era como se as panelas fossem sabedoras dos retornos essenciais daquela moça.
E a verdade era que quem dava vida à cozinha-mãe eram as pessoas que, como a moça, chegavam viajantes das ruas. Ali, elas desnovelavam seus caminhos de fada. Sempre chegavam, dependuravam seus chapéus e bolsas e casacos, bicavam o forte café e começavam os novelos de prosa. A cozinha-mãe era inteira ouvidos. Era inteira ouvida também. E, às vezes, as caçarolas olhavam tão confortáveis os que ali estavam que a eles só lhes restava confessar segredos... E rir da vida. Geralmente os risos eram à tardinha. Sorrisos abertos que saudavam a noite e deixavam as pequenas xícaras sujas, borradas de café. Após os novelos de fios de conversa, a noite terminaria em novela. Ou em um bom livro. Lido com calma antes da próxima viagem.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Sobre a Angústia da Influência (ou Breve Recado de Uma Amadora)

Se eu conseguisse escrever, Clarice, possivelmente isso seria um verso.
Se eu conseguisse escrever Clarice, isso seria um verso.


sábado, 6 de agosto de 2011

Notícia de última hora (ou A história da moça do pequi)

Cuidado, raiz de um pequi eterno enforcou uma moça ontem. De pequi ela gostava (chegava a gostar muito), de modo que não fora aquele gosto exótico e bom e amarelo que a matara. O que a matara, de fato, foi a eternidade. A eternidade de um pequi enraizado. Ali e sempre. Ela, que era moça passageira. Tão passageira que a confundiam com pessoa atônita.

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

A morte da máscara oficial

Mário Braz
Luana Borges
Terça-feira, nove da manhã, o sol começando a esquentar. Saio de casa, cara de rotina, roupa de rotina, clima de rotina. Bolsos carregando preocupações modernas, ticket de ônibus, telefone, chaves, carteira e contas. O corpo, ainda acostumado ao descanso da cama, vai se desenrolando pela rua, na fumaça e no barulho dos carros, crianças, conversas e hábito.

A cada passo, um pensamento cai, uma preocupação aparece. A falta de algo checa os bolsos, a pasta e o tato do corpo. A falta de personagem pesa sobre a cabeça, como uma autopunição. Como poderia esquecer minha figura dramática? Deve ter adormecido, se enrolado nas cobertas e agora descansa no vazio frio de uma cama vaga. Com que cara esconderei toda a minha irresponsabilidade? Como dissimularei a inexistência de interesse? Meus músculos não saberão como agir. Vão escrever nas linhas da minha face toda mentira escondida nos diálogos fingidos, todo o não consentimento mascarado.

Sou o resumo daquele que não concorda e que, no entanto, cala. Por mudez, vinda de pura preguiça, finjo consentir. Internamente, contudo, a revolta é grande. E tola. Em meio às preocupações de meu bolso – o bilhete do ônibus, o dinheiro contado, a conta de luz, as letras secretas de alguém – carrego o retrato 3x4 de um dos meus rostos mais sisudos. Retrato de um olhar que parece querer correr de toda a insanidade que por vezes mentimos não ver, ou a fingimos normal.

Outro olhar fugidio. Na rua da vida o moleque vende goma. E a gente desvia os olhos. Optamos pelas fotos claustrofóbicas e enclausuradas dos shoppings. O menino vende bala e ninguém sabe dele. Ninguém quer saber. Assim continuamos tecendo diálogos com quem não nos importa, em um ar condicionado gélido e artificial. Escritório. Óculos. Tapinha nas costas de engravatados cardíacos e desinteressantes.

Ah! Interessa-me mais o menino e o movimento na rua. Interessa-me aquilo que ninguém percebe. Comove-me o pássaro no fio tenso de eletricidade e o vendedor de picolés que proseia feito poeta. Até me esqueço da conta de luz. Mas o ônibus continua a correr. A coisa não pára. Leva-me à rotina.

Outro senhor engravatado. Dez da manhã. Ponto eletrônico. Pasta repleta de documentos. Minhas digitais coincidentes com meu fingimento matinal. A conta grita no bolso e cala meu menino no semáforo. Desperto a figura dramática que deixei embrulhada nos cobertores de minha cama e visto a indumentária habitual. Sorrio com hálito de café à secretária.
Entretanto, um dia gritarei. Desequilibrando-me da linha tênue do hábito. Na corda bamba. Meu Deus! Onde está a minha máscara oficial? Caiu no picadeiro. Durante o show de equilibrismo. E me restará, apenas, gritar o convite: “Respeitável público, chamo a todos para escutarem os repentes das ruas!” O senhor engravatado vai embora, indignado. “Pessoas que não têm o que fazer”.

Eu então rio a poesia de meu sorveteiro e masco os chicles do moleque que corre. O homem do terno, por sua vez, enxuga o suor. É um senhor respeitável. Chega à sua casa com ar notório. Não encontra a mulher. Ela deve ter ouvido qualquer poema, para além de seu muro alto, metrificado os passos e seguido o som da lira. O homem sozinho, tão respeitado, mas sem rima alguma que soe seus tons. Suado. Enforca-se com sua gravata vermelha.

Sem lira

Com ira

Sem lírios

Delírio

(seus louros não valeram uma vida enforcada).

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

De uma tarde, por Graça

Se daquela tarde pudesse tirar algum sorriso ou alguma lágrima, tudo isso viria do caminho de volta. Fez a mesma rota de antes, no mesmo carro, o mesmo sinal e quem sabe as mesmas pessoas que caminhavam na praça. A mesma amiga do lado. Chegou. Riu. Tomou aquele mesmo café, apenas aquecido. Riu de novo com a boca de um amargo bom. Serviu. Falou. Foi embora. Graça, menina que via tudo e que não entendia metade das coisas do mundo, porque não entendia metade de si mesma. Apenas sabia que olhava cansada para aquela moça do carro ao lado, que devia ter trabalhado todo o dia como atendente, seu uniforme branco-vermelho de um pano ralo.

A moça elogiara o cabelo de Graça. Um elogio, apenas gratuito. De graça. A menina tinha vontade de elogiá-la também, retribuindo, como tem de ser. Mas não conseguira, semáforo aberto, apenas reparara no tom vermelho, batom da boca da moça, boca bem desenhada e fina. A moça era bonita. Mas não recebera elogios. O sinal abriu e Graça muito se ateve ao batom e às listras branco-vermelhas daquele uniforme. Ateve-se tanto que até se esqueceu. Por se ater, esquecia-se com frequência de falar. Mas via tudo. As coisas, naquela tarde, passavam por ela como há muito não acontecia. Um ponto de ônibus lotado de trabalhadores e estudantes, como antes.

E, sob o mesmo ar vespertino, era de novo a menina que corria ruas. A vida seria correr ruas tão doces e sujas. A vida seria se ater a postes, luzes, ventos, canteiros, árvores, olhares, sorrisos e até a pessoas inteiras. A vida apressava-se com o sol e dançava com a lua. E, de sol-a-sol, formava-se num eterno presente que pensa o futuro. E, de tão terno presente de vida, Graça, lindamente humana, não o recebia com a devida gratidão. Estava longe dos santos.

Restava-lhe então ir. Rir. Mas aquele riso assim sem graça - de quem apenas ia - às vezes divinamente se esquecia de ser amarelo. Aí se engraçava. Graça enchendo-se de si. Engraçando-se aos poucos. Esforçava-se então: não cobraria mais nada de Deus. Tampouco duvidaria da Bondade. Dar-se-ia. Dar-Lhe-ia, apenas grata, sus gracias.

(Luana Borges)

Esta é da Clarice Lispector, publicada no Jornal do Brasil, em seu espaço para crônicas:

DESAFIO AOS ANALISTAS
Sonhei que um peixe tirava a roupa e ficava nu.

quarta-feira, 18 de agosto de 2010

A prosa impúrpura do Caicó

Ah, Caicó arcaico
Em meu peito catolaico
Tudo é descrença e fé.

(Chico César)

quinta-feira, 22 de julho de 2010

O menino sonhador

Os tênis sujos e surrados equilibram-se, em sua meninice, em brancos meio-fios. Nada podem esperar daquela tarde, além do sol e das horas que brincam de enganar a noite. A rua ainda está laranja de crepúsculo, pois a lua sobe preguiçosa. Satélite danado... Entrou no jogo do relógio, que combinou com seus ponteiros de tardar o dia, e então os segundos e minutos ficaram de cochicho e se esqueceram do ofício mecânico e rotineiro de passar.

Mas a lua devia ter gostado das travessuras do relógio, pois encontrara um namorado no Japão, um pássaro de olhos orientais e de plumagem lisinha e serena, que uma vez cantara sua beleza. E logo a lua inchou de felicidade e de luz. E ficava assim bem cheia e sorria tantos raios que, aqui na Terra, poetas e namorados e funcionários das fábricas nem precisariam, sob o manto negro da noite, acender suas lâmpadas artificiais. Então, para o moleque do meio-fio e dos tênis rotos, quando as vontades da lua apaixonada coincidiam com a ânsia revolucionária de um relógio proletário que protestava ao não passar, o dia laranja ficava mais bonito e tinha até gosto de suco gelado.

E o menino sabia de todos os segredos da lua e dos conluios entre relógio e ponteirinhos desaforados. E, nos momentos de crepúsculo, ficava imaginando a dor lunar ao deixar aqueles ares japoneses que cantavam tão doces e rodopiavam ventos de amor. E até se incomodava por sua amiga celeste. Também franzia a testa suada da derradeira corrida, em tom lamentoso, quando se lembrava do parceiro da parede e dos pulsos – sempre condenado, pela ordem do dia, ao trabalho incessante e às revoluções frustradas.

Mas logo passavam o incômodo e o lamento do guri. É que o laranja era bonito em demasia... e quanto mais lua e relógio demorassem por decidir suas vidas, maior era o tempo em que a cor única, de um céu borrado em vários tons, ficava. E ficava, como garoto que à tardinha se recusa a ir pra casa. A terra corada que não quer ceder. Ficando, tão fugaz. Ficando, apenas em um lapso de tempo em que os tênis do menino conversavam com os pedais terapeutas de uma bicicleta vermelha.

E, sobre duas rodas, ele corria tão doce! Tão vulto vermelho imerso, imenso, no laranja-fim-de-tarde de uma rua tão dele. Cabelos de vento, menino todo de vento, cortava veloz a cor que findava o dia. E dava boas-vindas à lua. Ouvia-lhe dizer da saudade passarinha do namorado. Falava-lhe sobre o sentir falta, essencial. E ele ainda soprava um breve“relaxa”ao companheiro relógio. Pois nada no mundo, naquele momento, podia se rebelar contra o que é sempre tão natural. Viria noite inevitável.

E meu moleque sabia de todos esses mistérios. A testa suada. A cabeça fria, de vento, sobre a bicicleta. E seus pedais giravam. Como as voltas do mundo. E nada podia parar, sob pena de que os laranjas - breves e bonitos - não fossem mais tão rotineiros.

(Luana Borges)

sábado, 19 de junho de 2010

Uma cidade

Não digas onde acaba o dia.
Onde começa a noite.
Não fales palavras vãs.
As palavras do mundo.
Não digas onde começa a Terra,
Onde termina o céu.
Não digas até onde és tu.
Não digas desde onde és Deus.
Não fales palavras vãs.
Desfaze-te da vaidade triste de falar.
Pensa, completamente silencioso,
Até a glória de ficar silencioso,
Sem pensar.

Cecília Meireles

Após algum tempo sem postagens - apesar de muitos escritos, fase de andanças, viagens, histórias e silêncios - vai aqui mais um texto. Em minhas gavetas, há outros tantos. Ainda não soube explicar porque este aqui mereceu o blog. Talvez não merecesse. Enfim, pude me aquietar colocando-o aqui. Foi escrito - e enviado - a uma amiga que há muito me fizera ter necessidade de ir ao papel e rabiscar pensamentos. Escrevi-o na pequena cidade de San Pedro de Atacama, região desértica do Chile, já no alto da Cordilheira dos Andes. Por esses tempos, de mochila nas costas, eu apenas era... uma viandante.



Há uma cidade mágica que já deve ter virado parte dos seus sonhos. Uma cidade para onde você vai, cansada e muda e só, a cada bofetão que leva quando está andando por aí. Uma cidade que de tão simples ficou sendo só sua. Ela tem casas de barro. Ela não tem asfalto. É simples como é simples este meu texto pra você. Porque tinha de ser assim, porque lá do alto o que se vê mesmo é a pequenez das coisas que, de tão reduzidas, não conseguem mesmo apresentar qualquer nível de complexidade e detalhismo. Na cidade tem vento. Tem pessoas. Tem chita. Tem cachorro. Tem tudo que se basta para uma vida. A água é pouca e suficiente. A areia é muita e suja os olhos. A cidade tem tudo porque não excede. Porque o excesso faz o andarilho se perder. Deve-se andar por ruas essenciais. O excesso pode levá-la a incompletude, minha querida. A cidade tem tudo porque é vida das mais escassas. Mas é vida.

Lá, o silêncio é muito e te preenche de pessoas. Você sabe que está só, meu bem, oh, você sabe que sabe disto: que sempre estará só - e com todo mundo - porque a vida nunca foi ter uma pessoa. Quem desejou possuir um ser humano só para si (“e quem nunca desejou?”, como diria aquela nossa outra amiga Clarice) foi aquele quem primeiramente comeu a maçã. E depois todos deram uma mordida porque é muito fácil recair no erro dos outros, a culpa nunca será mesmo de ninguém, pois a burrada é geral e assim dá pra sorrir tranquilamente. Pois volto ao que falava: você sabe que está só, mas que (e aí está o segredo bom) todo mundo anda com você. Você não deve estar entendendo meu paradoxo. Também me expliquei mal. É que a cidade é muito simples e minha alma ainda está nela, por isso não consigo falar como poetas ou filósofos, que ficaram esnobes depois de um tempo.
Explico-me: o que digo é que, aqui do alto, o vento me sopra que você pode amar os outros, ver olhos bonitos e verdadeiros, dar a mão a eles, acariciá-los. A vida só tem sentido por esses olhares: pupilas de mãe, de pai, de irmãos, de amigos, de namorados, de mestres e até de pessoas em segredo. Mas eu disse: “você está só”. É que você não pode querer possuir esses olhos, meu bem. Possuí-los é torná-los doidos, endiabrados, míopes. Pupilas aflitas presas em cavidades orbitárias. Pupilas que não percorreram mundos, que não experimentaram outras texturas de cores e traços e que agora se desesperam. Você não pode levá-las consigo. Tem de andar só, porque não precisa de um olho guia triste na coleira. É melhor tê-lo solto e mesmo assim olhando por você.
E eu já estou com muitas delongas. É porque o sol da cidade me fez perceber essas coisas que lhe falo agora. Raios solares tão fortes, em meio ao silêncio desértico de minha mais nova cidade, cochicharam comigo e eu precisava fofocar segredos: partilhar minhas descobertas, brincar de contá-las, reinventá-las.
Disse que aqui tudo é escasso, mas faço uma correção nessas mal tecladas linhas: aqui do alto, o único excesso é feito de areia e silêncio. Oh, um excesso que não excede, que não passa. Não passa porque faz com que o andarilho - que se senta nessa areia infinita - percorra necessariamente sua própria mudez. Psiu! O vento me sopra que eu já estou falando demais e que, nesse ofício mecânico de abrir e fechar a boca, esqueci-me justamente de percorrer silêncio. Nessa cidade, esse é o meu dever de casa. Se eu não cumpri-lo, o vento briga comigo. Então digo mais nada. Saiba que apenas o vento me sopra.
Beijos,
Luana Borges.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Alta costura

Cansei de poesia pesada
Mas resta tirá-la de mim
Estirpá-la em tiras
Retalhar a tensa palavra
E dos meus fardos
Tecer roupas de cetim

Luana Borges

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

Clarice e Cecília (aquém e além de palavras)

Suas saias já não mais roçavam complacentes pela casa, já não mais tinham aquela doçura e singeleza do rosa chita de bordados delicados. Ela já pudera gritar alto e, muitas vezes, até perdia a razão e o senso por ter vibrado a garganta veemente. Aquelas suas cordas vocais às vezes eram tão opressoras que ofendiam, finas e agudas e humanas, as pessoas que ela mais amava, logo aquelas que ela não tolerava de tanto amor.
Ah, ela também tinha a felicidade de quem trabalha, ordeira e cotidiana, vinda da fábrica do expediente. Ela adorava escritoras, mas as lia pouco, na verdade lia quase nada. Era porque sempre dava uma loucura por escrever. Então começava um livro, parava, escrevia besteiras e retornava depois. Demorava-se nele como quem se perde. Como quem quer se perder. Era ignorante de olhos marejados. Uma íris amarela, que abrigava pupila aflita e circundante, e logo se misturava à chuva de lágrimas que vinha por qualquer coisa.
Ainda acreditava que lua bonita, em noite de cidade suja, aliviava o cansaço. E chorava contida como se a água salgada de seus olhos limpasse o concreto urbano. Era Cecília. Amiga de Clarice com quem conversava uma linguagem delas próprias, que só pessoas bem estranhas iguais as duas iriam entender e rir. Aliás, elas riam por horas ao telefone. Riam no tráfego de carros sisudos. Riam nas ruas antigas de um lugar histórico. E Cecília tinha a amizade de Clarice, que a olhava profunda, sem se revelar. Apenas olhava assim de um jeito meigo, que logo ficava perigoso, porque afinal se revelar deve ser muito perigoso mesmo.
Cecília escolhia sempre o mais difícil e continuava. Feliz. Sabia que mentiam. Oh, também sabia perfeitamente que aquele homem não era assim tão bom. E, apesar de não gostar - e de não achar justo - aceitar o erro feio e repetido e egoísta de alguém, era mais fácil fingir acreditar em mentiras. Então inventava suas próprias histórias. Fantasiava carinhos. E parava de escrever quando não sabia mais quais palavras usar. Ou quando ficava escuro demais para achar as letras. Ou quando vinha a preguiça de dizer frases nas entrelinhas do breu. Facilmente se cansava. E pronto. E só.
E só, muda e linda, lembrava Clarice, de olhos fechados, os cabelos escorridos na chuva, os pingos fortes, os ventos bons, as mãos nos bolsos. Elas estavam cerradas e Cecília ia. Em direção a qualquer lugar. Em direção ao que devia ser dela. Carregava uma incerteza tão bela sobre o futuro – embora soubesse que alguma coisa, de fato, seria algum dia dela – que a fazia olhar fixamente ao longe, por entre o aguaceiro que vinha do céu.
Ela apenas desejava acompanhar os ventos promissores do sul. Com eles chegaria enfim àquele povoado da serra, ou quem sabe à paisagem erma dos campos mineiros, ou talvez se depararia com os prédios antigos, alaranjados de pôr-do-sol, da capital fria de cafés quentes. A verdade é que ela só quereria chegar a qualquer lugar, com a graça de um passageiro consciente de seu estado de passagem.
E Cecília conhecia pouco, menina de tudo, mas sabia que a vida era pessoas que iam e vinham, sempre efêmeras, mas que se demoravam eternas nos corações tolos. Por isso escrevia. Escrevia gentes. Escrevia céus cinzas ou sóis escaldantes. Escrevia suspiros demorados ou palpitações terríveis. Fazia chover letras a fim de fixar as coisas. Escrevia para não perdê-las. E o fugidio então criava raízes no terreno firme e doido de seu coração, já assoberbado de tantas batidas.
(Luana Borges)

domingo, 1 de novembro de 2009

Um período clariceano

Ninguém saberia que aquelas palavras agora eu conhecia. Mas eu teria que carregá-las sozinha, para não magoar o que amo. Eu teria que carregá-las sozinha porque as roubei. Mas ora... Uma vez roubadas, elas eram minhas. Mas não eram minhas por direito e, dessa forma, o que amo teria plena razão de ficar enraivecido. Por isso, eu as carregava sozinha e perpetuava um crime que era só meu, que somente eu sabia e que ainda não tinha encontrado terreno firme nas terras indóceis do coração.
Essas terras eram perigosas e meu crime as percorria, doce e tristemente. Percorria-as revelador e torcendo para encontrar um trecho seguro dentro de mim. Porque se não encontrasse, aí o mal estava feito e as terras indóceis do coração subiriam à boca e eu, humanazinha sempre tola, teria a necessidade – o desejo irrefreável – de falar aos outros sobre o meu crime. Mas seria magoar. E eu não queria magoar a quem quer que fosse. Muito menos ferir o que amo, àquela rosa amiga, de quem roubei as palavras.
Haveria mesmo necessidade de revelar qualquer coisa? Afinal, as rosas iriam um dia desabrochar e ver que o medo só combina com o desconhecido. Mas eu já as conhecia bem, tão bem que suas pétalas nem precisavam abrir a boca para eu entender os sentimentos inacabados e sigilosos. Eu as conhecia, contudo não a um ponto de tê-las como certas. Conhecia-as a um ponto de entender a ponta, apenas um pedaço pequeno de ponta, do segredo. Entendia apenas um relance do olhar. Não a visão completa. E essas rosazinhas me ensinaram – em um momento em que não havia tempo de aprender e em que eu não podia estar disposta às descobertas - que não há mal nenhum em não saber.
Aliás, ensinaram-me mais: não saber de tudo e não revelar de imediato são atributos indispensáveis à condição de carinho, cuidado e amizade. Porque há de se descobrir aos poucos, na caminhada. Há de se encontrar os mistérios cotidianos em míseras pontas de olhar. Há de se entender, sem falar. O silêncio é condição de amizade*. E há de se cuidar do que não foi explicado porque se a coisa não se explicou foi por zelo. E zelo pede tato. Os sentimentos não se apresentam acabados e definidos e expostos. O enigma é o que há de mais certo. E as pessoas têm direito a terem seus segredos.
Mas eu, humanazinha novamente, desrespeitei essa regra. Burlei o segredo de minha rosa, tão nova, mais nova que eu, e que por isso exigia tanto cuidado. Roubei o segredo e agora carrego, sozinha, esse crime. Há de se pagar. Até que minha rosazinha desabroche e veja – sem medo, porque nos conhecemos a ponto de desvendar a pontinha sempre incerta de mistério - que suas pétalas podem falar. Não tudo, porque parte do enigma é essencial. Mas podem falar sem preparar seus espinhos.
Aí eu não teria de revelar absolutamente nada porque parte do segredo roubado, por si mesma, se revelaria normal e fugidia, brotaria do dia, dos mistérios cotidianos. Mas, agora, unicamente espero que a rosa mais nova perdoe a curiosidade imprudente e desrespeitosa de quem ainda não aprendeu a zelar.
(Luana Borges)
*Clarice Lispector

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Meus vinte anos passam agora como se fossem trinta ou quarenta. Isso é besteira! De cara já vou dizendo que este texto não merece ser lido. Não quero me comprometer com você, leitor preguiçoso e que exige códigos inteligíveis. Você me cansa de explicar tudo didática e perfeitamente. Na verdade, estou mesmo é cansada de mim, sempre comprometida com os pormenores de todas as explicações. Minha vida é tola e exige de mim certa organização. Mas, no momento, a única coisa que posso esperar é meu total devaneio, ininteligível e que se perde por amar, odiar e se revoltar demais. Meu pior erro é sentir e tudo o que queria na vida era executar ações sem pensar. Os tolos têm mais sentimentos e sofrem por coisas que, de tão pequenas, os inteligentes que otimizam o tempo não conseguem nem percebê-las. Meu pior erro é sentir. Almejaria apenas uma vida simples de trabalho até às seis da tarde. À noite, só quereria desejar um programa de televisão que me levasse ao ápice da ignorância, cheia de felicidade doce e plena... E ficaria até às dez com filhos e amigos, quem sabe com uma chuva caindo e me fazendo falar da vizinha ou do cunhado. Eu não quero ser entendida, agora. Como disse, cansei-me de me explicar. Cansei-me desse outro organizado. E minha casa estremeceu quando apenas vi que poderia chorar por três horas sem motivo aparente ou quando vi que os olhos enchiam de lágrimas por desejos proibidos ou ainda quando percebi que o melhor da vida é exatamente aqueles momentos em que nada fazemos e apenas sentimo-nos viver, olhando-nos uns aos outros e respirando. E se viver exige de mim tal simplicidade, estremeci porque não a consegui. Minha casa, construída sempre com tijolos tão seguros e milimetricamente distribuídos, caiu quando vi que estes tempos tristes me separaram das coisas simples. Separaram-me pela culpa. Esse diabo sempre me perseguiu. Por que um ser humano tem de se culpar por passar a tarde olhando nuvens e sol, se isso é a vida e nada mais? Pela culpa, não me permiti parar e olhar calmamente. Meus olhares, mesmo quando não apressados por já terem cumprido o expediente do dia, sempre foram aflitos e sedentos de algum carinho pausado. Eles olharam a vida, sim, e captaram alguma beleza singela. Mas a olharam e logo pensaram no que deviam fazer para ganhá-la. Veja só! Para que ganhar uma vida que, todavia, já me foi dada? E disso veio meu cansaço de jovem que nasceu velha. E disso veio minha recente desorganização mental. Porque resolvi curtir meu presente que me foi dado e o que ganhei foi uma gastrite, recado de uma culpa que me desafia todos os dias. Mas já nem me importo. O que busco, hoje, é apenas o melhor de mim. O que conseguirei, talvez, será apenas esse estágio de contemplação: uma observação atenta e calma das coisas que passam e uma presentificação interna das coisas que ficam. Talvez isto seja a única coisa que posso e que tenho o direito de esperar de mim. Tudo o que quero. E você não precisa me entender. Sei também que minha casa caiu. Mas ainda tenho um terreno e, nele, sob a luz das estrelas do céu, estou mais desprotegida e mais desesperadamente viva.

Luana Borges

Sobre a vida de uma menina*

No quintal da minha infância, mamonas e mamões. Talos que serviam de canudos para bolhas de sabão. Dois vizinhos que brincavam ao meu lado. Minha irmã com seus lindos olhos. Os azulejos floridos, o grande tanque cheio de água que cheirava à roupa molhada e à umidade das três da tarde. Havia pães de queijo e biscoitos. Na rua de minha infância, logo acima de minha casa, tios e primas. Um armazém de balinhas gratuitas. Depois, no neon de minha adolescência, letreiros brilhavam à noite. Asfalto molhado e risos amigos. Danças e xis-salada. O centro da Capital. Talvez um violão e um menino bobo que me olhava em misto de irritação e encanto. Grandes shows e tolos protestos. Encenações em palcos comoventes. Nas luas de minha adolescência, talvez também amores desperdiçados. Tudo pelo simples prazer de ser eu assim, tão livre. Agora, chego à labuta de minha juventude. Responsabilidades. Trabalhos em meio a pessoas que também conseguem ser uma vida inteira e carregar, em seus olhares laboriosos, todas suas felicidades particulares. Bom que ainda existam seres assim. Bom que eu também, nos computadores e nas matérias de minha juventude, consiga ainda ser aquela antiga menina da bolha de sabão. Sorriso torto e franco e aberto. Daqueles cheios de dentes que quase expõem o ciso. Mas no meio da tarde quase adulta, sob intenso sol e incessante trabalho, será que ainda conseguirei respirar e pegar mamonas para brincar, mesmo que mentalmente, com todos os meus? Com a força de minha paixão, espero que sim. Tudo porque o que está ainda no meu íntimo, na verdade, são os azulejos floridos de minha infância e os grandes olhos de minha irmã. Mesmo com todas as mudanças, espero sempre ter em mim essa menina boba. Preciso dela porque ela está nos meus olhares felizes e nas minhas pupilas cintilantes. E realmente não importa se já descobri que as balinhas não eram gratuitas, pois minha tia as pagava mensalmente para o meu consumo feliz. Sempre terei a necessidade de manter minha bobeira, ingênua e inevitável.
* "mas menina é uma palavra tão bonita!" stephani echalar diz a giovanna e a luana, em conversa após o almoço. O título ia ser sobre a vida, menina veio só por causa da frase de steph...
Luana Borges

terça-feira, 14 de outubro de 2008

O rio ou a travessia

Ele perdeu o fôlego, mas não queria chegar à margem de lá do rio. Fatigava-se. Entre as águas revoltas, afogava-se, tossia, cuspia um caldo amarelado - mistura de água e restos de comida que saia de seu esôfago. Agitava-se em meio ao turbilhão molhado. Rio feroz e lamacento. Mas mesmo assim, queria ficar lá, cansando-se. Lutando contra correntezas, exercitando a força dos músculos em uma queda de braço desigual com a força divina da natureza. Mantinha-se firme dentro do rio. Fragilizado. Paradoxal.
Sim, sabia nadar. As crises na água, os acessos de tosse, o cuspe fatigado se davam apenas quando vinham as fortes correntezas – que levavam sua força e esperança. Nadava depressa. Estranhamente, ele não queria chegar à margem de lá. Quando tossia muito, procurava um caminho paralelo à outra beirada do rio. Sabia que as paralelas não se cruzavam. Assim, acreditava não correr riscos de ser ver na encosta. Mas nadava depressa para onde? Ele não sabia. E acreditava que pensar nisso era coisa de filósofo. De desocupado. Ele era ideologicamente capitalista. Tempo é dinheiro. Pensar gasta tempo. Executa! Executa! Faz logo, sem se perguntar muito! Onde estão os rendimentos?
E sem mais perguntas, executava os movimentos de braços e pernas, mantendo-se na água. Mas nem sempre era a tal da agitação molhada. Às vezes, o rio se tornava calmo. Lento. Parecia a tranqüilidade feliz trazida pelo amor de uma donzela. E ele sorria. Embasbacado. Amava a água. O rio! Ah! O rio era lindo! Os peixes nas suas entranhas traziam a seiva para a vida. E animava-se em nadar, fazia movimentos vorazes, queria abraçar aquelas águas lindas. Vontade de vida! De exercê-la sem medo, cultivando somente paixões.
Nadava. Nadava. Nadava. E estava sempre em meio à antítese alternada. Entre as correntezas fortes e a calmaria represada. Mas um dia seus músculos anciãos foram murchando. A carne em pelancas. Isso não podia! Fizera sempre muitos exercícios! A fragilidade do corpo humano não podia acometê-lo! Com ele não! Sim, meu caro. O próprio rio o desgastou. Vida fatigada. A carne já quase podre, quase pó. E não conseguia mais nadar. A ferocidade das águas barrosas levava-o para a tão temida beirada do rio. Ele ainda tentava lutar. Tinha medo! Urinou. Amareladamente. Covardemente (era preciso muita coragem para assumir essa covardia). Nas águas aquecidas pelo sal de seu corpo, ele nadava – olhos fechados para não ver a margem - contra a corrente. Corrente natural da vida. Fluxo divino.
Na margem, morreu. As águas do rio da vida ficaram calmas novamente. Marasmo. Elas apenas esperavam o próximo nadador que iria se debruçar na encosta sonhando em ter, no sono eterno, outro rio por onde navegar. Sonhando em ver outras águas do lado de lá. Sonhando em se jogar em novas correntezas. Querendo mais a antitética aventura da vida!

(Luana Borges)

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Eu-flor

Minha matéria-prima feita de
paisagens com pássaros desafinados,
voantes em céus quentes.
Nas rosas metaforizadas,
Sou só eu
E eu só!

Sentimentalismos no sertão
De poucas flores
Resistentes.
No sol a pino
E no vento rude
Persisto flor
Louca por idéias novas.

Mas desamparada
Murcho no sol escaldante
Pelos meus desejos cansados
De que um dia ainda chova em mim!

(Luana Borges)